A serenidade da vida insular contrasta com a agitação do Atlântico no Inverno. Esta é a segunda parte da minha viagem aos Açores, em que tive a oportunidade de conhecer as ilhas do Pico, São Jorge e da Terceira. O slow living de quem tem por lá as suas rotinas. Com ou sem ligações de barco, independentemente do que se passa para lá do mar. Viver no meio do oceano atlántico pode parecer claustrofóbico visto de fora. Mas é tranquilo, sereno e em ritmo vagaroso visto de dentro.
Madalena do Pico, o vinho que nasce da lava
A Madalena do Pico é a maior vila da ilha e, para muitos, a principal porta de entrada já que chegam e partem daqui os barcos para São jorge e para o Faial. Mas é sobretudo o coração vitivinícola do Pico, e aqui o vinho não é apenas um produto — é a identidade maior e o destaque na paisagem.
Logo de manhã passei pela Adega Cooperativa do Pico, onde fiz uma prova de vários vinhos da ilha (bem, já eram 11h, acho que estava a valer Kkkkk). Estes vinhos são únicos porque nascem de um solo improvável: lava negra basáltica, extremamente pobre em nutrientes, onde as vinhas crescem protegidas por muros de pedra seca — os famosos currais. Estes muros não só defendem as videiras do vento e da maresia, como absorvem o calor do sol durante o dia e o libertam à noite, criando um microclima perfeito para a maturação das uvas. A proximidade do mar acrescenta ainda uma salinidade muito própria, que se sente no copo, sobretudo nos vinhos brancos. São vinhos minerais, tensos e com carácter.
A sul da Madalena, não podem mesmo deixar de visitar a Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, em Criação Velha, classificada como Património Mundial da UNESCO. Aproveitem para caminhar por ali, há alguns trilhos demarcados com os currais a perder de vista e o Atlântico logo ao lado.
Mesmo ali perto, vale a pena uma paragem no Museu do Vinho, facilmente reconhecível pela sua icónica casinha vermelha, talvez o postal mais conhecido da ilha. Lá dentro, encontra-se muito mais do que a história do vinho: há ferramentas, lagares, barricas, documentos e explicações que ajudam a contextualizar a importância da viticultura no Pico e o impacto que teve na economia e na vida das pessoas.
Para um momento mais descontraído, recomendo a zona balnear das Piscinas Naturais da Barca. As piscinas de origem vulcânica são perfeitas para um mergulho em dias de bom tempo, mas mesmo que não seja dia de banhos – que foi o caso do dia em que eu estive por lá – há um excelente motivo para passar por ali: o Cella Bar. Moderno, bem integrado na paisagem, é o sítio ideal para beber um copo ao final da tarde, com o mar como cenário de fundo.
Por fim, não deixem de fazer um troço da EN3, em direção ao centro da ilha. A estrada serpenteia entre paisagens verdes, ladeada de hortênsias, e oferece vistas lindíssimas. Cá para baixo, o Faial surge em frente; cá para cima, a montanha do Pico deveria dominar o horizonte… deveria. No meu caso, o tempo não colaborou e o Pico esteve sempre encoberto, escondido nas nuvens. Ainda assim, confesso que isso não tirou magia à experiência — pelo contrário, só reforçou a ideia de que esta ilha tem o seu próprio ritmo e que nem tudo se revela à primeira. E eu claramente, ia perceber durante a minha estadia que teria mesmo que voltar.







São Roque do Pico, lagoas na montanha
São Roque do Pico é o lado mais verde da ilha. Aqui, a paisagem é menos domesticada, mais próxima da sua essência natural, e a melhor forma de o conhecer é mesmo ao volante, sem pressas, e sem GPS. Até porque o sinal de rede é fraco e acabei por perder-me várias vezes nos cruzamentos da montanha, Kkkkk.
As estradas de montanha são um dos grandes destaques deste concelho. Subir em direção ao interior da ilha é entrar num mundo em que o verde se adensa, o silêncio aumenta e, a cada curva, surgem novos enquadramentos e um sem fim de oportunidades de fotografia. Durante este percurso passei por várias lagoas — há muitas espalhadas pela montanha — mas duas das mais interessantes foram: a Lagoa do Capitão e a Lagoa Rosada. A primeira pelo localização, fora da rota de estrada habitual; a segunda, mais resguardada, num pequeno vale, pela vista da estrada e a forma como o vento ecoava por lá. Para além destas vão cruzar-se com várias outras e não resistam a parar o carro e fazer mais uns cliques.
Recomendo fazerem a estrada de montanha completa até à zona da Piedade. É um percurso que mostra bem a diversidade da ilha: começa no interior, passa por zonas mais abertas e acaba por descer em direção ao mar. Depois, o regresso pela costa norte fecha o circuito de forma perfeita, com o Atlântico sempre presente e a costa mais recortada a acompanhar-nos.
Foi precisamente no regresso que parei no Restaurante Magma. Muito bem localizado, com vistas abertas sobre o mar, um espaço onde a paisagem e a sopa de peixe que serviram fazem parte em igual medida da experiência. Fica a nota de que o Magma tem também opção de alojamento, e pareceu-me bem simpático. Antes de regressar a São Roque do Pico, valeu ainda a paragem na zona da Prainha, estivesse o dia bonito e teria ido a banhos.
O dia terminou em São Roque do Pico, uma vila simpática e espraiada ao longo do mar, onde apetece mesmo sair do carro e caminhar. Recomendo fazer o percurso pedonal ao longo do paredão das piscinas naturais, até chegar ao Museu da Indústria Baleeira. A caminhada é tranquila, bonita e ajuda a contextualizar a relação histórica da vila com o mar.







Lajes do Pico, o mar que transforma as pessoas
As Lajes do Pico foram, talvez, o lugar que mais me tocou em toda a ilha. Aqui, o mar não é apenas paisagem — é identidade, memória coletiva e talvez ainda algumas ferias por fechar. A história da indústria baleeira está entranhada nas ruas, nas casas e, sobretudo, nas pessoas.
A caça à baleia marcou profundamente o Pico, e as Lajes foram um dos seus grandes centros. Durante décadas, homens partiram para o mar em frágeis botes baleeiros, enfrentando o Atlântico e animais gigantescos, num trabalho duríssimo, perigoso e extenuante. Não era aventura nem romantismo — era sobrevivência. Para uma comunidade insular com poucas alternativas económicas, a baleação representava sustento, mas também perda, risco constante e um peso emocional que atravessava gerações.
Talvez por ter uma costela de pescadores e uma vida historicamente ligada ao mar, esta parte da história tocou-me de forma particularmente profunda. É impossível não pensar nas famílias que ficavam em terra e numa relação com o oceano que era tudo menos idílica. O mar dá — mas também tira.
O fim da baleação chegou relativamente tarde, apenas na década de 1980, quando Portugal assinou os acordos internacionais que puseram termo à caça à baleia. Foi um momento de rutura profunda: de um dia para o outro, uma atividade central desapareceu. Mas aquilo que mais me impressionou nas Lajes foi perceber como a população se soube reinventar, sem apagar o passado. Hoje, a vila vive sobretudo da atividade turística e do whale watching, transformando a antiga relação de exploração numa relação de observação, respeito e conhecimento. As mesmas águas onde antes se caçavam baleias são agora palco de saídas para as ver no seu habitat natural. É uma mudança de paradigma poderosa, integrando a história.
Essa memória está viva e bem cuidada. Há poucos botes baleeiros sobreviventes, mas tive a oportunidade de acompanhar o restauro de um deles na Casa do Barco, uma visita que recomendo vivamente. Adorei ver aquele trabalho minucioso, feito com respeito absoluto pelas técnicas tradicionais, e passei por lá algum tempo só a observar e à conversa com o Sr. Francisco.
Outro ponto fundamental é a visita ao Museu da antiga Fábrica da SIBIU. Ali, a baleação deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser concreta: máquinas, espaços, ferramentas e explicações que mostram o que era a indústria por dentro, sem filtros, no local onde tudo acontecia chegados a terra.
As Lajes do Pico mostram que é possível olhar para o futuro com consciência do que ficou para trás. Para mim, foi um dos lugares mais intensos da viagem — daqueles que nos acompanham muito para lá da viagem.






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