Confesso que, até visitar Ovar, associava a cidade a pouco mais do que o seu famoso pão de ló. Mas bastaram algumas horas para perceber que este concelho tem muito mais para oferecer. Das fachadas revestidas de azulejos às tradições gastronómicas, passando por uma das igrejas mais surpreendentes, e terminando junto ao Atlântico, Ovar revelou-se um destino perfeito para uma escapadinha de fim-de-semana em Portugal. Deixo por isso aqui a minha sugestão de roteiro para descobrir Ovar, um dos concelhos mais autênticos da Ria de Aveiro.
Começamos por Ovar, a cidade é simpática e percorre-se facilmente a pé – o que não podem deixar de fazer se quiserem percorrer a famosa Rota do Azulejo. Também no centro vão encontrar várias pastelarias e produções locais do famoso pão-de-ló de Ovar e nós não podíamos deixar de explorar o lado gastronómico da cidade por isso estivemos num workshop “de comer e chorar por mais” na Pastelaria Celeste. Para além desta duas atividades clássicas, sugiro que passeiem com calma, caminhem até ao rio Cáster, passem pelo Mercado Municipal e visitem algumas das igrejas da cidade – todas elas revestidas a azulejo, pois claro.
1. Rota do Azulejo – um museu a céu aberto
Foi numa manhã de sol que partimos à descoberta do centro histórico de Ovar para percorrer a famosa Rota do Azulejo. Munidos de um mapa e de uma pequena reprodução em azulejo que nos tinha sido oferecida pela Câmara Municipal, tínhamos uma missão muito particular: encontrar a peça original integrada numa das fachadas da cidade. O desafio revelou-se bem mais complicado do que inicialmente imaginado. O percurso, desenhado para destacar algumas das mais emblemáticas fachadas azulejadas de Ovar, segue praticamente um circuito circular pelas ruas do centro histórico, mas nós começámos pelo lado “errado”, o que nos levou a percorrer quase toda a rota antes de encontrar o que procurávamos – o que não teria sido um problema se as paredes de azulejo não fossem tanto e a minha fé na busca não se fosse desvanecendo a cada rua que passava.
Pelo caminho, fomos descobrindo porque é que Ovar é conhecida como a Cidade-Museu Vivo do Azulejo. A partir do final do século XIX, impulsionada pela prosperidade económica da época, a utilização de azulejos nas fachadas tornou-se uma marca distintiva da cidade, transformando ruas inteiras numa autêntica galeria de arte ao ar livre, com exemplares oriundos sobretudo das fábricas de Aveiro e Vila Nova de Gaia. A atual rota turística foi criada pela autarquia para valorizar este património único e conduzir os visitantes pelos principais exemplos desta herança cerâmica.
E quando já quase tínhamos desistido da busca, confesso que achei mesmo que tinha deixado passar a fachada pretendida, surgiu finalmente a resposta ao enigma: o nosso azulejo estava no número 54 da Rua Cândido dos Reis, praticamente em frente ao local onde tínhamos o carro. É caso para dizer, se fosse um bicho, tinha mordido. Mas ficamos com uma história para contar.
Depois de quase uma hora à procura do nosso azulejo, começamos a achar que a Câmara Municipal devia lançar uma espécie de caderneta de cromos da Rota do Azulejo. Afinal, já andávamos pelas ruas de Ovar com o mesmo entusiasmo e/ou frustração de quem procura o último craque que falta para completar a coleção do Mundial. A ideia até tem potencial: cada fachada seria um “cromo” para descobrir, tornando a visita ainda mais divertida para miúdos e graúdos.



2. Workshop de Pão-de-Ló de Ovar
A paragem seguinte levou-nos até à Pastelaria Celeste, uma das casas mais emblemáticas de Ovar, para participar num workshop dedicado ao ex-líbris gastronómico da cidade. A marca Pão de Ló Celeste é considerada a mais antiga marca de pão de ló de Ovar ainda em atividade, tendo sido registada em 1917 e preservando uma receita familiar transmitida ao longo de várias gerações. Atualmente, esta herança é mantida por Gabriela Ramada Ribeiro, mais conhecida por todos como Gaby, que nos recebeu de forma calorosa e nos abriu as portas do seu mundo de açúcar, tradição e memória.
Ao longo da sessão, a Gaby explicou-nos, passo a passo, como se confeciona um autêntico Pão de Ló de Ovar, partilhando pequenos segredos e curiosidades sobre uma receita que surpreende pela sua simplicidade que nasce de apenas três ingredientes — ovos, açúcar e farinha — transformados, através da técnica e da experiência, numa verdadeira obra-prima da gastronomia tradicional. O resultado é aquela famosa separação em três camadas: a estrutura de bola exterior mais clássica, o interior húmido e cremoso, que distingue o Pão de Ló de Ovar dos restantes pães de ló portugueses, e a fina camada do topo (o Ló!). Esta estrutura constitui uma das características protegidas pela sua Indicação Geográfica Protegida (IGP), reconhecimento atribuído pela União Europeia em 2016. A certificação garante que apenas os exemplares produzidos no concelho de Ovar, seguindo métodos tradicionais, podem usar esta designação.
No final da experiência, regressámos a casa com um pão de ló acabado de fazer e uma recomendação muito específica da Gaby: esperar 24 horas antes de o provar e servi-lo… à garfada! Sim, não leste mal. Não se deve usar uma colher, mas sim um garfo para servir o pão-de-lo. Com esta técnica, considerada a ideal pelos verdadeiros apreciadores, vais conseguir preservar e desfrutar as três texturas do pão-de-ló. Seguimos as instruções à risca e, no dia seguinte, percebemos porquê. A delicada côdea dourada escondia um interior incrivelmente húmido, macio e guloso, daqueles que tornam impossível ficar por uma única garfada. Foi a melhor forma de terminar uma experiência que nos permitiu não apenas provar um dos doces mais famosos de Portugal, mas também compreender a história, a tradição e o saber-fazer que lhe dão vida há mais de dois séculos.



Depois de percorrermos a Rota do Azulejo e de conhecermos melhor o centro histórico de Ovar, sugiro que sigam para Válega, uma das aldeias mais conhecidas do concelho. A poucos quilómetros da cidade, encontrámos dois locais que ajudam a contar a história e as tradições da região: a colorida Igreja Matriz de Válega e o Museu Escolar Oliveira Lopes.
3. Igreja Matriz de Válega
A Igreja Matriz de Válega tem que entrar em qualquer roteiro de visita a Ovar. Habituados que estamos às igrejas portuguesas de tons sóbrios e interiores dominados pela pedra, pela talha dourada e por uma decoração que associamos muito mais a sofrimento e ao sacrifício, aqui encontrámos algo completamente diferente. A fachada, revestida por um impressionante conjunto de azulejos coloridos concluído no século XX, destaca-se pelas cores vibrantes e pela riqueza dos detalhes, tornando impossível passar indiferente.
Mas o que mais nos chamou a atenção não foi apenas a sua beleza visual. Tanto no exterior como no interior, a igreja funciona como um enorme livro ilustrado, onde os painéis de azulejo retratam episódios da vida de Cristo, da Virgem Maria e de vários santos, contando histórias através de imagens acessíveis a todos. Cusiosidade: com caras locais dos mecenas da sua construção 🙂 vão precisar de visita guiada como a nossa para encontrar algumas delas.
Mas mesmo que façam a visita por vossa conta, em vez da austeridade que tantas vezes associamos ao património religioso, vão sentir facilmente aqui uma atmosfera mais luminosa, próxima e até alegre. As cores, os padrões e os elementos decorativos criam um conjunto fora da caixa, quase inesperado, que reflete a identidade artística da região e a forte ligação de Válega à tradição azulejar.



4. Museu Escolar Oliveira Lopes
A visita ao Museu Escolar Oliveira Lopes está instalado numa antiga escola inaugurada no início do século XX, o museu preserva salas de aula, mobiliário, materiais pedagógicos e documentos que ajudam a perceber como era o ensino em Portugal há mais de cem anos.
Mas ainda mais importante que os objetos expostos, foi a história de Oliveira Lopes, que mais me cativou neste projeto. Um benemérito local que acreditava profundamente no valor da educação e que investiu parte da sua fortuna na criação de uma escola moderna e de qualidade para as crianças da sua terra. Num tempo em que o acesso ao ensino estava longe de ser garantido para todos, teve a visão de perceber que a educação era uma ferramenta essencial para o desenvolvimento da comunidade. Estamos alinhados nos valores – que não perdem atualidade – talvez por isso tenha gostado tanto desta visita.


Depois de explorar Válega, voltámos à estrada em direção ao Atlântico. A paragem seguinte seria no Furadouro, a praia mais conhecida do concelho de Ovar.
5. Furadouro
Há muito que esta praia faz parte das memórias de verão de gerações de portugueses e continua a ser um destino procurado pelo seu ambiente descontraído, pelo extenso areal e pela forte ligação ao mar. Gostei particularmente da atmosfera tranquila do final do dia, quando os veraneantes vão abandonando a praia e o passeio marítimo convida a caminhar sem pressas. À medida que o sol desce no horizonte, pintando o céu de tons dourados e alaranjados, percebe-se porque é que tantos visitantes escolhem o Furadouro para passar uns dias de descanso. E porque o mar faz parte da identidade desta vila, não faltam restaurantes onde o peixe e o marisco são os grandes protagonistas da carta, tornando qualquer refeição num excelente complemento para um dia passado entre cultura, tradição e natureza. É exatamente o ambiente onde me sinto em casa.
Foi também no Furadouro que acabei por pernoitar. O Furadouro Boutique Hotel Beach & Spa foi o escolhido, uma opção confortável mesmo em frente ao mar, que acabou por ser o cenário perfeito para terminar a escapadinha. Depois de um dia intenso a explorar o concelho, ainda tivemos tempo para desfrutar da piscina interior, da sauna e de uma excelente massagem no spa. Entre o ambiente acolhedor, as instalações bem cuidadas e a simpatia de toda a equipa, encontrámos exatamente aquilo que procurávamos: um espaço onde foi fácil abrandar o ritmo e aproveitar os últimos momentos desta descoberta de Ovar.




Sugestão mais ativa: Paddle na Ria
Se tiverem algumas horas extra, recomendo também uma experiência diferente da habitual visita aos monumentos e às praias: um passeio de paddle na Ria de Aveiro. Nós optámos fizemos com a Red Animal e foi, sem dúvida, um dos momentos mais relaxantes da viagem. Longe da agitação do litoral, a ria revela um lado mais tranquilo de Ovar, onde o ritmo é ditado pela natureza. Enquanto deslizávamos calmamente sobre a água, fomos apreciando a paisagem típica deste ecossistema lagunar único, formada por canais, sapais e pequenas ilhas que servem de abrigo a uma grande diversidade de aves. Garças, corvos-marinhos e outras espécies encontram aqui condições ideais para viver, enquanto nas margens prospera uma vegetação adaptada à água salgada e às marés. Não é preciso ter experiência prévia em paddle para desfrutar do passeio – acreditem que nem me molhei! Pelo contrário, a tranquilidade das águas torna esta atividade acessível e perfeita para desligar, apreciar a paisagem e observar a ria sob uma perspetiva completamente diferente.



Onde comer?
O Tasco – Furadouro: um clássico incontornável junto à praia. Famoso pelas suas lulinhas grelhadas com batata cozida. Um prato simples mas extremamente bem confeccionado. As filas à porta podem demover, mas certamente um local onde regressar.
Oxalá – Cais do Carregal: uma experiência diferente num dos restaurantes mais conhecidos do concelho. Com um conceito diferente de buffet de entradas à disposição dos clientes e uma sala no primeiro andar com vista para a Ria onde provamos a Sinfonia de Peixe que supostamente seria para duas pessoas mas trazia comida para quatro entre as diferentes variedades de peixe e marisco.
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